- Não gostou da janta Nina? Quer alguma coisa diferente? Verônica perguntou, quando reparou que eu não estava comendo.
- Não Verônica, é que estou sem apetite.
- Aposto que comeu as bobagens que servem no avião. Não foi?
- É exatamente.
Na verdade aquela conversa anterior tinha me deixado completamente enjoada, me fazendo perder o apetite. Eu estava com uma tremenda dó do garotinho, e Verônica tentava agradar de todas as maneiras.
- Pretende voltar à Austrália Bruno? Ela perguntou.
Como ele não respondia eu cutuquei Bruno por debaixo da mesa.
- Sim, logo após a formatura de Bernardo.
- O seu emprego está garantido, até lá?
- Eu pedi às férias que tinha por direito.
- E Daniel como está?
Bruno respirou fundo, soltou os talheres e respondeu sem alterar o tom de voz.
- Olha Verônica, não precisa forçar tá legal, se tivesse a fim de saber como Daniel está teria dado um telefonema a ele, ou mandado um e- mail nesses últimos 20 anos.
- Desculpe Bruno, eu só...
- Sério, não precisa fingir que gosta de mim, vai me poupar de ter que fingir que eu gosto de você. Então, vamos encarar essa situação como se fosse um assunto profissional, tá legal assim?
- Claro filho me desculpe.
- Pode me chamar de Bruno.
Eu tive vontade de acertar um tapa na orelha de Bruno, como ele pode ser tão grosso? Ele nunca foi de dar esses tipos de resposta! E Bernardo porque não falou nada? Ele deveria ter defendido a mãe das grosserias de Bruno. Então percebi que a Sonsa segurava a mão de Bernardo, e o encarava parecendo imobilizar seus sentidos, Ela impediu que Bernardo reagisse a favor da mãe só com um olhar! Controladora miserável!
- Bom, eu lavo a louça! Foi só o que eu consegui dizer, levantando da mesa.
Bernardo se levantou sério e disse:
- Bruno, pode me ajudar com os colchões? Vamos colocar no chão da sala para você e Nina dormirem.
Caio saiu atrás dos dois para ajudar. E meu celular tocou.
- Mãe? Oi tudo bem? Sim chegamos bem...
- Como sabe que Verônica esta aqui?
- Tá legal eu mando o beijo sim.
Eu coloquei a mão no bocal e falei baixinho.
- Depois te conto tudo, mas só pra te adiantar isso aqui tá cada vez mais perto de parecer um filme de terror... Então vi a Sonsa me encarando, e voltei a falar normalmente. Tá legal mãe tenho que desligar beijos.
- Vou pegar uns lençóis limpos e travesseiros para vocês. Verônica falou desanimada, e saiu.
- O que esta me olhando Carol? Não é por nada mas odeio que me encarem.
- Desculpe, só estava imaginando se posso confiar em você?
- E porque confiaria em mim? Nem me conhece direito.
- Acho que está errada quanto a esse ponto. Infelizmente eu conheço você mais do eu pudesse desejar ou fosse do meu agrado, mas não estou aqui para revidar suas grosserias comigo.
- Então o que quer de mim? Para que precisa confiar em mim?
- Nina, o que você vai presenciar essa noite, envolve uma série de questões. E uma delas é o fato de você entender o que acontecia com Bernardo. Ele te trouxe até aqui e está expondo a vida desse garoto e a dele também. Só para que você realmente o perdoe. Acha que vai deixar de ser essa pessoa infantil por um momento e realmente perdoar, do fundo de seu coração?
- Acho que isso é um problema que eu e Bernardo vamos resolver juntos e acho que você não tem nada que se meter nisso. Você esta fora dessa história.
- Tenho sim, porque eu amo Bernardo do fundo da minha Alma. Eu sei que isso está deixando ele profundamente magoado, ele tem esperança que você possa realmente entender, você é muito importante para ele. Eu não quero que Bernardo sofra. Quero ele feliz, e é ai que eu entro nessa história.
- Você é mesmo uma Sonsa, se quer meter o bedelho em algo, porque tentou impedir Bernardo de defender a mãe agora a pouco. Ele ficou chateado com isso também. O fato é que você quer se meter entre Eu e Ele!
- Isso foi um assunto de mãe e filho, Bruno e Verônica têm que resolver suas diferenças sozinhos, e não seria nada bom o menino presenciar uma briga entre os dois irmãos.
Eu parei de lavar a louça e mostrei meu dedo médio para ela.
- Só espero Nina, que deixe de ser infantil, e possa perdoar Bernardo para ele tirar esse peso do coração, o resto pode deixar que eu agüento! Ela se levantou e saiu da cozinha.
Eu estava exausta, irritada, mas terminei toda louça quando fui para sala, estava tudo pronto. A mesinha de centro tinha sido afastada e colocaram dois colchões no meio da sala para eu e Bruno dormir.
Pedi licença para utilizar o chuveiro e quando voltei Bruno já estava dormindo, ou melhor, capotado. As luzes estavam apagadas e somente a TV ligada iluminava a sala, não queria incomodar Bruno então resolvi não acender nenhuma luz, aproximei minha mochila próxima a TV, para pegar uma meia. Aqui fazia mais frio do que eu era acostumada, depois de me sentir agasalhada e aquecida apaguei a TV e me deitei, num sono profundo e cansado.
Já devia passar das três da manhã, quando eu ouvi um choro alto de criança e algumas vozes distantes. Imaginei que tivesse esquecido a TV do meu quarto ligada, até que me dei conta de onde eu estava, E o que vim fazer.
Levantei-me correndo, assombrada com o choro agonizante que ouvia, Bruno já não estava mais do meu lado, então eu fui lentamente ao dormitório aonde vinham as vozes. Antes de eu entrar no quarto, Bruno saiu de lá me dando um encontrão.
- Eu não quero ver, aquilo tem que parar. Ele estava pálido. Então ele saiu e eu entrei, e a cena não era nada convidativa.
Verônica estava junto à cabeça do menino com uma compressa fria. Carol estava ao lado segurando a mãozinha do garoto e murmurando algo. Bernardo estava inclinado no peito do garoto, abraçando e pedindo para ele tentar se acalmar. Que tudo isso iria passar.
- Vai passar eu prometo! Você vai ver Caio vai passar.
Eu me aproximei, perto da cama, o garoto parecia acordado seus olhos estavam bastante arregalados.
- Ele esta acordado? Eu perguntei a Verônica.
- Não ele esta em como se fosse uma transição entre real e sonho.
Eu olhei mais de perto.
- Verônica os olhos dele, parece ter mudado de cor.
Os olhos azuis índigo do menino, estavam um azul quase noite.
- Isso se chama manifestação física, é muito comum, geralmente quando se dá a visão os olhos escurecem um pouco, com Bernardo também acontece.
Aquelas palavras me fizeram gelar, Bernardo também sofria assim, ele não tinha sonhos repetitivos, mas tinha o de premonição simultânea. Lembrei dos olhos deles quando me contou seu sonho recentemente. Como eles suportavam isso, Ele viu o acidente de Rafael, ele viu Daniel se afogar, viu aquele homem tentar me violentar, eu não podia entender antes até presenciar aquele sofrimento do menino que agora tossia muito e. sofria todo dia a morte dos pais..
- Faça isso parar...
- Se acalme Nina, ele já vai voltar. Carol falou.
- Pelo amor de Deus esse menino vai morrer ele precisa de ajuda.
- Estamos aqui para ajudá-lo Nina.
Então Bruno que havia voltado me tirou lá do quarto.
- Beba essa água vai se sentir melhor.
- Bruno, eu vi o terror nos olhos dele, como pode ser isso?
- Eu sei Nina, também vi. Já vimos o que podíamos não vamos mais entrar lá.
Depois de um tempo quando tudo pareceu mais calmo. Apenas Bernardo saiu do quarto e veio nos encontrar.
- Caio esta dormindo, agora esta tudo bem.
- O que vai acontecer com o garoto? Eu perguntei.
- Quase a mesma coisa que aconteceu comigo, ele vai crescer esse sonhos vão mudar, ficar diferente, mas não sei ao certo como vai ser com ele. Ele se recusa a falar. Carol esta trabalhando nisso, E minha mãe adquiriu muita experiência esses anos todos, ela vai poder ajudar muito.
- Como você passou por tudo isso sozinho, Bernardo? Bruno falou, - Quero dizer, eu vi o estado daquele garoto, e vocês estavam ao lado dele ajudando, mas e você?
- Caio é uma criança Bruno, eu tive uma infância muito feliz, nunca tive um trauma só sonhos bons, Um adulto consegue discernir o que é visão e o que é real, torna mais fácil o controle pós - visão, para mim do que para ele que é só uma criança.
- Mesmo assim isso dá medo.
- Vocês me entendem agora? Desculpe fazer vocês vir até aqui, ver isso, mas era o único jeito para fazer vocês entender um pouco.
- Eu estou envergonhada, por te acusar Bernardo.
- Não, não quero que fique. Eu só quero que saiba, eu não sei como vai ser, não sei se vou vivenciar esses sonhos outra vez, ou se isso já passou, não posso garantir nada, só quero que saiba que a culpa que isso provoca é tão real quanto os sonhos.
- Eu entendi, e juro, Se isso voltar e você precisar que eu te ajude de alguma forma, pode me pedir, você não precisa se esconder estarei do seu lado nessa, se não quiser falar mais sobre isso, nunca mais vou te perguntar, vou respeitar vai ser como você decidir.
Ele me abraçou.
- Não sabe como é bom ouvir isso de você.
Então ele se virou para Bruno.
- Sei que nunca gostou disso tudo, mas veja o lado bom, apesar de sermos irmãos não temos que dividir esse dom. Agora entende como Verônica acabou me ajudando muito?
- Eu entendi, retiro tudo que já joguei na sua cara.
Os dois bateram as mãos.
- Bruno só mais uma coisa. Não seja tão ríspido com a mamãe. Ela errou com você e Daniel. Mas é uma pessoa maravilhosa e está fazendo de tudo pelo garoto. Às vezes eu a pego chamando Caio de Bruno ou Daniel. Ela sofre muito pelos seus erros passados, você não precisa lembrar isso a ela.
- Vou me esforçar.
- É um bom começo.
- Bernardo, acho que eu e Bruno podemos ir embora amanhã, desculpe mas acho que não quero ver isso de novo.
- Tá legal, mas almocem amanhã com a gente.
Na manhã seguinte Caio Bernardo e Bruno, saíram para andar de skate.Eu acordei com uma tremenda enxaqueca, tomei um analgésico, mas não consegui acompanhar o passeio dos garotos e fiquei parte da manhã deitada por conta disso. Mas assim que melhorei me levantei e fui ajudar Carol e Verônica com o almoço.
- Ah querida você melhorou? Verônica perguntou.
- Graças a Deus! Achei que minha cabeça fosse explodir!
- Sente aqui e não abuse se não ela pode voltar. Ela puxou a cadeira para eu me sentar.
- Bom está tudo quase pronto. Vou buscar um refrigerante no bar da esquina. Vê se presta atenção no arroz Carol.
Verônica passou por mim e cochichou.
- Amo esta garota, mas ela é péssima cozinheira.
Carol que estava na pia tirando a louça da frente exclamou!
- Eu ouvi isso sogrinha querida!
Elas riram e Verônica saiu. Carol sentou-se à mesa comigo ainda rindo.
- O pior é que ela está certa, Nina, eu odeio cozinhar. Você cozinha bem?
- Não, eu sou a pior lá de casa. Eu ri também.
Então achei que chegou à hora de me desculpar. E fiquei séria novamente.
- Carol, desculpe ter sido tão boba com você. Ontem vi você é uma pessoa forte e saberá compreender Bernardo melhor que ninguém.
Ela também ficou séria.
- Sabe, Nina, não vou ser falsa com você, você é minha maior rival, meu ponto fraco nesta história toda, se eu disser que gosto de você ou vice versa, vamos mentir, mas acho que podemos ser maduras e tentar agir como adultas, já que você faz parte da família e nosso convívio vai ser inevitável.
- Eu concordo com você em tudo que disse, pretendo realmente mudar Carol, e rápido.
- Não importa a velocidade que se muda Nina, o que importa é o caminho que se escolhe.
Eu apenas respondi com um sorriso.
- Droga Nina, queimamos o arroz!
Era obvio que Carol era muito mais que eu podia imaginar, começando pelo fato de ela não ter nada de sonsa, pelo contrário, era inteligente demais e usava isso a seu favor, e para completar era corajosa e determinada, enfrentava tudo em nome do amor que sentia por Bernardo. O fato de ela ajudar o menino na hora de sua crise, me fez perceber porque Bernardo apostava suas fichas nela.
Tivemos um almoço sossegado, Bruno já não estava sendo grosso com Verônica, mas também não puxava nenhum assunto se limitava a responder educadamente. Mesmo ele estando indiferente eu senti que ele balançou em relação a ela com toda essa história.
- Bom, esta na hora de irmos, não queremos perder o avião.
Caio correu para abraçar Bruno, eles se identificaram um como outro, fisicamente pareciam irmãos.
- Moleque você vai ficar fera no skate, é só treinar.
Ele consentiu com a cabeça.
- Promete me escrever uns e-mails?
Ele balançou a cabeça de novo.
- Olhe só se você se esforçar com o tratamento, e voltar a falar eu prometo te dar um skate novo e venho entregar pessoalmente! E mais fico o fim de semana inteiro!
O menino pulava feito louco dando soquinhos pelo ar.
- Acho que isso pode funcionar! Carol falou erguendo as sobrancelhas.
- Caio e o meu beijinho? Eu falei.
Ele correu me deu um beijo na bochecha e ficou vermelho.
- Opa assim vou morrer de ciúmes! Carol falou!
Ele correu para abraçá-la.
Então voltamos para São Paulo naquele dia.
- Nina.
- Que?
- Continuo acreditando naquela historia de papai mexendo os pauzinhos lá do céu.
Eu ri e disse.
- Pode acreditar, e algo me diz que eu preciso procurar seu amiginho malvado Arthur Junior assim que eu botar os pés na Baixada.